O Anibaleitor
este faz mais sentido escrever em PT portanto mudamos de língua de novo
Sempre achei piada a Rui Zink. A conta de instagram dele é exactamente o meu sentido de humor (mas sempre que o partilhei com pessoas, ninguém me compreendeu). E esta reedição da Porto Editora de O Anibaleitor, a sua obra mais conhecida (e que eu achava que se escrevia/lia Aníbaleitor, que nem esdrúxulo é, mas adoro o trocadilho com Hannibal Lector porque, novamente, é o meu tipo de humor) foi a desculpa perfeita para finalmente me cruzar com a sua obra.
Não sabia muito sobre este livro - nem sequer que era direccionado para um público mais juvenil, o que muito me apela -, e rapidamente a história me prendeu. É um livro sobre livros (e sobre leitores), com inúmeras referências não só literárias, mas também musicais (Dunaaaas…) e cinematográficas. Tenho a certeza que não apanhei todas das imensas referências brilhantes ao longo do livro, mas apanhei algumas e, quiçá, com uma releitura, compreenda muitas mais.
A mais óbvia, para mim, foi a referência a Moby Dick - que me entusiasmou imenso, e eu não adorei o Moby Dick. Temos um jovem narrador que relata a sua aventura quando entrou clandestinamente num barco cujo capitão, qual Ahab, tinha como missão capturar o Anibaleitor a qualquer custo. O que só descobrimos um pouco mais tarde é que o Anibaleitor não é necessariamente um psicopata canibal, como o título poderia dar a entender - além de humanos, o Anibaleitor também devora livros.
"É que eu... eu gosto de todos os livros."
O Anibaleitor olhou-me com comiseração:
"Ó pá, pela tua rica saúde, espero bem que não. Deve ser uma chatice, gostar de todos os livros."
O Anibaleitor é uma espécie de King Kong fisicamente, um gorila gigante de aspecto monstruoso, mas que na verdade só queria ter um amigo com quem falar de livros. Não é, na verdade o que procuramos quando criamos instagrams/blogs de livros/grupos de leitura/os migramos para o substack por falta de interacção em todos os anteriores? E assim, qual Sherazade, o jovem narrador acaba por se salvar do seu destino cruel ao falar com o Anibaleitor sobre livros.
"Como eu estava dizendo, não preciso de quem me conte histórias. Mas sinto falta de alguém com quem as discutir. Alguém que me dissesse: Ó pá, era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. O que me dizes, temos acordo?"
A história do adolescente também é explicada ao longo do livro. No meio do divórcio dos pais, ocupados com as suas lutas pessoais, o rapaz começa a faltar à escola, que o aborrece, entrava num mundo de pequena delinquência, e a embarcação acidental nesta demanda pelo Anibaleitor ajuda-o a fugir à rotina, ao drama familiar, aos trabalhos de casa, às regras inerentes à vida normal.
Tudo o que é bom acaba. Tudo o que é mau também, só que, por uma estúpida razão qualquer, nos damos mais conta do pouco que as coisas boas duram.
É um óptimo e entusiasmante livro de aventuras. Tenho, por ler, O Destino Turístico, mas garanto que só de escrever esta publicação fiquei com vontade de reler O Anibaleitor.
podem comprar esta edição, com belas ilustrações de Juan Domingues, na wook




Adoro livros sobre livros! Acho que o único livro do Zink que li foi A Ilha de Teresa e agora fiquei com vontade de ler este! Vai já para a minha listinha.
Obrigada 🙏